sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Como sempre, Chico nos deu uma boa lição

Chico Buarque de Holanda é um artista completo: música, literatura, teatro. Além de
cultura e charme, tem algo que a decadente elite brasileira não suporta: integridade
moral, independência e coragem, valores que se orgulha de ter perdido. O texto de
Paulo Moreira Leite é outro primor na descrição jornalisticamente precisa, impedindo
massacre das feras, os jovens e os editores da GAFE (globo,abril,folha,estado).  



Entre humanos que relincham e outros capazes de zunir, num comportamento próprio de quadrúpedes morais, mais uma vez Chico Buarque de Holanda assegurou seu lugar na história do Brasil e dos brasileiros.

A cena vista e gravada num fim de noite no Rio de Janeiro é apenas a confirmação recente de que Chico é um artista que sabe qual é seu lugar em cada momento de nossa história.

Comporta-se dessa maneira há meio século, seja através da música, dos versos de gênio, de uma literatura cada vez mais apurada e espetacular. Age assim pela postura política de quem recusa o lugar de artista-mercadoria e sabe responder aos percalços e tragédias da conjuntura histórica com clareza, com valentia e uma auto ironia que o acompanha tanto nas horas agradáveis como nas mais difíceis, como se descobre pelo depoimento de um de seus amigos de “ Chico: um artista brasileiro”, documentário que é uma obra prima obrigatória para todo brasileiro preocupado em entender o seu país em 2015.

Mais do que um poeta, um grande escritor recém confirmado, Chico Buarque é uma das raras consciências da nação.   Ajudou e ajuda os brasileiros a entender o país em que vivem. Por qualquer meio utilizado, seus enredos convergem para a defesa das grandes maiorias, a solidariedade diante dos explorados e excluídos.

Sempre denunciou o regime militar, combateu a censura,  a brutalidade covarde da ditadura e o empobrecimento dos anos 1960 e 1970.  Antes e depois da democratização, atuou para defender a primazia dos direitos e interesses dos que não tem direito à palavra, o que explica a importância do pobre, do negro, do explorado, em sua música, na literatura, no engajamento político direto, num tratamento frequentemente solidário e até carinhoso em alguns momentos. Entendeu o ponto de vista mulher, muito antes que se tornasse moda. Defendeu -- como o filme mostra num depoimento surpreendente do início da carreira - os direitos de homossexuais quando palavras como veado e bicha eram parte do vocabulário familiar.   

Acima de tudo recusou as clássicas tentativas de acomodação com os interesses do alto, o que se reflete num comportamento que rejeita as vulgaridades típicas que a sociedade contemporânea reservas aos artistas de sucesso – a começar pelo inevitável beija-mão dos ricos e poderosos, entre eles a TV Globo.

Mostrando que aquilo que parece inevitável pode ser evitado, Chico mostrou uma força moral surpreendente no país da dialética da malandragem. Tem compromissos claros. Nunca deixou de ter um lado e sabemos muito bem que lado é este – e é isso, mais do que qualquer outro fator, que explica vários momentos de sua carreira, inclusive a agressão de anteontem.   

Atacado, cercado, naqueles movimentos tensos que podem descambar para uma situação fora de controle, Chico soube enfrentar com sorrisos e ironias uma provocação tipicamente fascista. Ouviu expressões inaceitáveis de ódio (“você é um merda, quem apoia o PT é um merda”) e ressentimento (“para quem mora em Paris é fácil”).

Manteve a postura adequada ao dizer que cada um tem direito a liberdade de sua opinião (“eu acho o PSDB bandido. E aí?”). No dia seguinte, ao postar a música " Vai trabalhar, vagabundo", lembrou a matriz moral de uma elite que jamais aceitou pegar no pesado. Três séculos e meio de escravidão nos contemplam. Seu nome é o desprezo pela democracia, a vontade indomável de recuperar privilégio, o desprezo pelos de baixo.

Meses depois da filósofa Marcia Tiburi escrever “Como conversar com um fascista”, Chico Buarque saiu da teoria para o terreno áspero da prática.

A experiência ensina que a bestialidade fascista costuma ser uma ação preparatória para atos de violência física, aberta e escancarada. É uma faísca a espera de uma chama capaz de produzir uma catarse.

Ao contrário de uma briga de rua, dos conflitos entre gangues adolescentes e mesmo guerras por ponto de tráfico, que se equivalem num mesmo universo entre interesses idênticos e apenas concorrentes, a violência fascista pretende assumir sempre um caráter político punitivo. É aí, pela pancadaria sem freios, até selvagem, que tenta produzir um espetáculo para sua ideia de superioridade com direito a prevalecer com base na força bruta.

Simula um discurso de redenção num universo que – de seu ponto de vista aloprado – se tornou incapaz de aceitar indispensáveis remédios civilizatórios. Tenta acobertar a própria brutalidade, de caráter criminoso, a partir de um discurso que busca apontar supostas falhas morais, incorrigíveis, inaceitáveis e vergonhosas, no Outro. Seu discurso tem como destino a morte, numa agressão animalesca que quer fingir que não se trata de pura bestialidade doentia, tentando justificar-se pelas falhas e faltas do Outro. É pura barbárie mas pretende ser castigo. Quer dar uma lição.

Num flerte que nasceu pela ilusão suicida de que os movimentos fascistas podem ser úteis a um negócio que eu sempre imaginei que precisava da liberdade de expressão para sobreviver, nossos meios de comunicação fizeram um papel vergonhoso. Numa clássica banalização do mal, pois precisam das bestas-feras para alimentar um golpe de Estado disfarçado de impeachment, editaram um noticiário com verbos e palavras que invertem os papéis, transformando a vítima em agressor. É preocupante, quando se recorda a estatura cultural de Chico Buarque de Holanda. Nem ele precisa poupado, ensina-se. Vale-tudo -- essa foi a mensagem no dia seguinte.

Quem deu a boa lição foi Chico e isso não surpreende, para quem já assistiu “Chico: um artista brasileiro”. Não vou lembrar, aqui, as inúmeras passagens maravilhosas e diversas cenas pouco conhecidas da biografia de Chico Buarque. Só isso já vale o filme – mas o documentário tem mais. Tem ideias, reflexões.

Fico na principal, que tem a ver com o Brasil de hoje. Num depoimento sobre um país envolvido com um ambiente de desencanto e inconformismo com a economia, a política, a cultura, Chico Buarque formula uma visão indispensável.

Diz que a situação “piorou porque melhorou”.

Você entendeu: as mudanças e progressos ocorridos num período recente, quando as maiorias conquistaram direitos e garantias impensáveis em qualquer época, mudaram o país de alto abaixo. Mas essas mudanças trouxeram contrapartidas que, do ponto de vista de quem já se encontrava do outro lado da nossa imensa avenida social, nem sempre são confortáveis, muito menos bem vindas. Muitas podiam ser corretas, mas sequer ocorreram como se tinha imaginado. E agora? pergunta o filme.

Falando dos anos de sua juventude, em boas escolas, numa família com vida confortável, Chico responde. Lembra da bossa nova, dizendo que, para seu gosto pessoal, era uma música muito mais agradável do que a fase atual da música brasileira. Admite, contudo, que fala de um ponto de vista de uma determinada elite, com uma certa formação e hábitos próprios de quem habita determinados patamares da pirâmide social.

Deixa claro, com sinceridade, que prefere viver num país onde todos possam expressar a música a seu gosto e a seu estilo – mesmo que isso não seja o mais agradável a seus ouvidos. Essa é a opção.

Você sai do cinema convencido de que, como a maioria das pessoas, Chico tem muitas críticas ao que ocorre no país de hoje. Nem por isso, contudo, perdeu as referências de sua história nem os valores que nos ensinou a preservar – mesmo quando eram impronunciáveis e até malditos. Essa é sua força, seu lugar.

Recusa-se a negociar princípios democráticos em nome do gosto pessoal.  

Essa é a lição que se deve aprender.

Fonte: http://bit.ly/1VgkAaR

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Zygmunt Bauman: "A educação deve ser pensada durante a vida inteira"



"Nosso sistema educacional é um poderoso mecanismo de, cada vez mais, reproduzir os privilégios entre gerações", diz Zygmunt Bauman em entrevista ao jornal O Globo. Criador do conceito de modernidade líquida, forjada pelas relações efêmeras do presente, o célebre filósofo fará uma conferência magna no encontro Educação 360, no dia 12 de setembro, no Rio de Janeiro. Nesta entrevista, ele reflete sobre o aprendizado e os desacertos da sociedade em relação ao ensino. Leia abaixo:

Qual a diferença entre educar na era pré-moderna e na modernidade líquida dos dias atuais?

Muita coisa se transformou no trabalho dos professores. Como o educador E. O. Wilson observou, “estamos nos afogando em informação e, ao mesmo tempo, famintos por sabedoria". A cada dia, o volume de novas informações excede milhões de vezes a capacidade do cérebro humano de retê-las. A mudança da sociedade moderna de sólida para um estágio líquido coincide, segundo a terminologia de Byung-Chul Han (teórico sul-coreano), com a passagem da “sociedade da disciplina" para a “sociedade de desempenho". Esta última é, principalmente, a sociedade de desempenho individual e da “cultura de afundar ou nadar sozinho". Mesmo indivíduos emancipados descobrem que eles mesmos não estão à altura das exigências da vida individualizada.

Então, é preciso mudar esse pensamento individualizado?

Nosso sistema educacional é um poderoso mecanismo de, cada vez mais, reproduzir os privilégios entre gerações. Nos Estados Unidos, 74% dos estudantes que frequentam as universidades mais competitivas vêm das famílias mais ricas, e 3%, das mais pobres. Além disso, muitas escolas e universidades induzem à fácil ideologia de que empregos bem remunerados são os únicos objetivos da universidade. Esses são apenas uns dos desafios, erros e negligências da educação contemporânea.

E como será no futuro?

Uma coisa certa é que, num cenário líquido, rápido e de mudanças imprevisíveis, a educação deve ser pensada durante a vida inteira. O resto vai depender de nossas escolhas dentro do que é possível para essa obrigação. E deixa eu enfatizar que esse “nós" que faz as escolhas não é limitado aos profissionais de educação. Para citar Will Stanton (professor australiano), que nos mantém alerta de que há muitos que pretendem ensinar nossos filhos apenas a obedecer: “Devemos aceitar autoridade como verdade em vez da verdade como autoridade". Ele ainda diz: “O que é a mídia mainstream se não outra plataforma de 'educação' defendendo a autoridade como verdade? Nós sentamos em frente ao noticiário noturno e escutamos âncoras e repórteres nos dizendo o que pensar, a quem apontar nossos dedos, porque nosso país precisa ir para a guerra e com o que a gente deve se horrorizar". Considere ainda o tremendo impacto da indústria da publicidade em nós mesmos ou no que as crianças aprendem ou no que elas foram levadas a esquecer. Por exemplo, crianças não nascem inseguras. A publicidade é que as deixa apavoradas com o que as outras pessoas pensam delas.

O sucesso mundial das redes sociais é um produto da modernidade líquida ou aspecto transformador dela?

As duas coisas. Nós estamos seduzidos pelos recursos das mídias digitais por causa do nosso medo de sermos abandonados. Mas uma vez imerso na rede de relações on-line, que tem uma falsa ideia de ser facilmente manuseada, nós perdemos ou não adquirimos habilidades sociais que poderiam (e deveriam) nos ajudar a extirpar as causas dos medos que vêm do mundo off-line. Assim, as redes sociais são, simultaneamente, produto da modernidade líquida e a sua válvula de escape.

O senhor afirma que o fato de a educação superior não garantir mais ascensão social é um problema para a educação tal qual conhecemos. Qual a solução para esse problema?

Ascensão social é uma sinfonia, não um canto gregoriano monofônico. A educação superior é apenas um dos muitos sons que se fundem na melodia, e um dos muito poucos instrumentos que contribuem para sua evolução. Nós configuramos o problema e torcemos por soluções, como o ensino superior, porque alguns desses “nós" que se preocupam, pensam e escrevem sobre o problema têm ensino superior e passaram anos sendo ensinadas que vivemos em uma “sociedade do conhecimento" que continua sendo transformada pelo tipo de conhecimento definido, armazenado e distribuído por universidades. Isso não é necessariamente correto — pelo menos até quando isso permanecer sem ressalvas. O que nós percebemos como ascensão social é um rio cuja trajetória resulta de vários afluentes. Mais e mais pessoas por trás das mudanças sociais que chamamos de “ascensão" desistiram da universidade ou nunca entraram nela.

Em seu novo livro, “A riqueza de poucos beneficia todos nós?", o senhor reflete sobre as desigualdades sociais. Qual é o papel da educação nesse contexto?

O sistema universitário de hoje foi incorporado pela economia de mercado capitalista. Ele serve como um outro mecanismo na reprodução de privilégios e aprofundamento das desigualdades sociais. Como diz Fareed Zakaria (escritor americano), enquanto um rapaz de 18 anos da Califórnia recebia a melhor educação possível nos anos 60 “sem qualquer custo", no ano passado os alunos precisavam pagar uma taxa de matrícula de US$ 12.972 se tivessem nascido no estado; se não, o valor sobe para US$ 22.878 (sem incluir custo de moradia e alimentação; o valor total do momento da matrícula até o diploma ficaria perto de US$ 50 mil por ano para não residentes). Poucos entre os milhões de pais amorosos e cuidadosos têm possibilidades de garantir um valor dessa magnitude.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O Eletromagnetismo do Coração

cientistas apontam que o coração pensa e irradia

Rebecca Cherry

“O coração é também o primeiro órgão formado no útero. O resto vem depois”. Recentemente, neurofisiologistas ficaram surpresos ao descobrirem que o coração é mais um órgão de inteligência, do que (meramente) a estação principal de bombeamento do corpo.




Mais da metade do Coração é na verdade composto de neurônios da mesma natureza daqueles que compõem o sistema cerebral. Joseph Chilton Pearce-, autor de A biologia da Transcendência, chama a isto de ”o maior aparato biológico e a sede da nossa maior inteligência”.

O coração também é a fonte do corpo de maior força no campo eletromagnético. Cada célula do coração é única e na qual não apenas pulsa em sintonia com todas as outras células do coração, mas também produz um sinal eletromagnético que se irradia para além da célula.

Um EEG que mede as ondas cerebrais mostra que os sinais eletromagnéticos do coração são muito mais fortes do que as ondas cerebrais, de que uma leitura do espectro de freqüência do coração podem ser tomadas a partir de três metros de distância do corpo … sem colocar eletrodos sobre ele!

A freqüência eletromagnética do Coração produz arcos para fora do coração e volta na forma de um campo saliente e arredondado, como anéis de energia. O eixo desse anel do coração se estende desde o assoalho pélvico para o topo do crânio, e todo o campo é holográfico, o que significa que as informações sobre ele podem ser lidas a partir de cada ponto deste campo.

O anel eletromagnético do Coração não é a única fonte que emite este tipo de vibração. Cada átomo emite energia nesta mesma frequência A Terra está também no centro de um anel, assim é o sistema solar e até mesmo nossa galáxia … e todos são holográficas.

Os cientistas acreditam que há uma boa possibilidade de que haja apenas um anel universal abrangendo um número infinito e interagindo dentro do mesmo espectro. Como os campos eletromagnéticos são anéis holográficos, é mais do que provável que a soma total do nosso Universo esteja presente dentro do espectro de freqüência de um único anel.

Isto significa que cada um de nós está ligado a todo o Universo e como tal, podemos acessar todas as informações dentro dele a qualquer momento. Quando ficamos quietos para acessar o que temos em nossos corações, nós estamos literalmente conectados à fonte ilimitada de Sabedoria do Universo, de uma forma que percebemos como “milagres” entrando em nossas vidas.

Quando desconectamos e nos desligamos da sabedoria inata de amor do Coração, baseado nos pensamentos, o intelecto refletido no ego assume o controle e opera independentemente do Coração, e nós voltamos para uma mentalidade de sobrevivência baseada no medo, ganância, poder e controle.

Desta forma, passamos a acreditar que estamos separados, a nossa percepção de vida muda para uma limitação e escassez, e temos que lutar para sobreviver. Este órgão incrível, que muitas vezes ignoramos, negligenciamos e construímos muros ao redor, é onde podemos encontrar a nossa força, nossa fé, nossa coragem e nossa compaixão, permitindo que a nossa maior inteligência emocional guie nossas vidas.

Devemos agora mudar as engrenagens para fora do estado baseado no medo mental que temos sido ensinados a acreditar, e nos movermos para viver centrados no coração. Para que esta transformação ocorra, é preciso aprender a meditar, “entrar em seu coração” e acessar a sabedoria interior do Universo.

É a única maneira, é O Caminho. A medida que cada um de nós começa esta revolução tranquila de viver do Coração, vamos começar a ver os reflexos em nossas vidas e em nosso mundo.

Esta é a forma como cada um de nós vai criar uma mudança no mundo, criar paz, criar harmonia e equilíbrio, e desta forma, vamos todos criar o Paradigma do Novo Mundo do Céu na Terra.”

Fonte: http://www.segundo-sol.com/2015/04/o-eletromagnetismo-do-coracao-cientistas-apontam-que-o-coracao-pensa-e-irradia.html

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A mídia de hoje tem as mesmas caras, linguagens e emissoras sem pudor da ditadura

Dia-logar: transcender a palavra: A mídia que ajudou a ditadura hoje é pior que no p...: Laurindo Lalo Leal Filho "Dia 1º de abril de 1964. Cinelândia, Rio de Janeiro. Em frente ao Clube Militar, um garoto de 12 anos co...

A mídia que ajudou a ditadura hoje é pior que no passado

Laurindo Lalo Leal Filho

"Dia 1º de abril de 1964. Cinelândia, Rio de Janeiro. Em frente ao Clube Militar, um garoto de 12 anos começa a gritar 'Jangooo', 'Jangooo'. Um homem alto e magro, cabelo cortado recente, bigodes finos, aponta a sua automática e explode a cabeça do menino. Nesse dia eu era diretor de jornalismo da Rede Excelsior de Televisão, na época líder absoluta de audiência. Nessa mesma noite de 1º de abril, no Jornal de Vanguarda, a cena foi ao ar", lembra Fernando Barbosa Lima no livro Gloria in Excelsior escrito por Álvaro de Moya. Era o início de uma longa ditadura e o começo do fim da única rede de televisão brasileira que, um dia, alinhou-se a um projeto nacional de desenvolvimento autônomo liderado pelo presidente João Goulart.

O Jornal de Vanguarda, havia sido premiado pela Eurovisão, a rede europeia de televisões públicas, como melhor do mundo no seu gênero, superando os programas de notícias da BBC de Londres. Com recursos e independência, a Excelsior criava um novo padrão de qualidade para a TV brasileira, copiado depois pela Globo. Ao tiro na Cinelândia seguiu-se a invasão da emissora por policiais armados e a derrocada de um império comandado pelo empresário Mário Wallace Simonsen. Figura esquecida intencionalmente pela mídia de hoje já que sua lembrança destroi a lenda golpista de que o Brasil de Jango caminhava para o comunismo.


Cena do filme VIII – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), de Tomás Gutiérrez Alea, com ator Jardel Filho

O dono da Excelsior, e também da Panair do Brasil e da maior empresa exportadora de café do pais, a Comal, de comunista não tinha nada. Tinha, isso sim, convicção que seus negócios só prosperariam se o país crescesse de forma independente, livre do jugo imposto pelos Estados Unidos. Disputava o mercado internacional do café com o grupo Rockfeller.

Esteve ao lado da ordem democrática durante os governos Juscelino, Jânio e Jango. Mandou um avião da Panair buscar o vice-presidente Goulart em Pequim, durante a crise da renúncia de Jânio em 1961 e hospedou-o em seu apartamento de Paris, durante uma das escalas da longa viagem. Os golpistas nunca o perdoaram.

Os projetos de reformas de base enviadas por Jango ao Congresso, em março de 1964, se efetivados, encaminhariam o Brasil para o patamar de “potência independente, com ascendência sobre a América Latina e a África” no dizer do sociólogo Octavio Ianni no livro 'O colapso do populismo no Brasil'.

A essa política se contrapôs, com o golpe, um modelo de capitalismo associado e dependente mantendo o Brasil na condição de satélite da órbita centralizada pelos Estados Unidos. Coube à mídia dar respaldo à subserviência, sem o qual a ação dos golpistas e depois a da ditadura, teria sido mais árdua.

No centro desse processo, como coordenador do trabalho de conquista dos corações e mentes da sociedade, estavam o Instituto de Pesquisas Sociais, o IPES e o Instituto de Ação Social, o IBAD. Um complexo de produção ideológica que “publicava diretamente ou através de acordo com várias editoras, uma série extensa de trabalhos, incluindo livros, panfletos periódicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o rádio e a televisão com suas mensagens políticas e ideológicas”, como mostra a pesquisa de Rene Armand Dreifuss, publicada no livro '1964: a conquista do Estado'.

A máquina da desinformação, azeitada por recursos captados nas elites empresariais pagava os donos de jornais, rádios e TVs ou diretamente os jornalistas, executores das pautas de interesse dos golpistas.

É precioso o relato de Rene Dreyfuss ao demonstrar como "o IPES organizava equipes de ‘manipuladores de notícias’ que preparavam e compilavam material sob a coordenação geral do general Golbery do Couto e Silva, especialista em guerra psicológica. Esses manipuladores se responsabilizavam pelas ‘campanhas de pânico’. A ‘campanha da ameaça vermelha’ empreendida pelo IPES mostrou-se muito útil na melhoria de sua situação financeira, já que atraiu contribuições de empresários tomados de pânico e profissionais que temiam o futuro".

Segundo Dreyfuss, "eram também 'feitas' em O Globo notícias sem atribuição de fonte ou indicação de pagamento e reproduzidas como informação factual. Dessas notícias, uma que provocou um grande impacto na opinião pública foi a de que a União Soviética imporia a instalação de um Gabinete Comunista no Brasil, exercendo todas as formas de pressões internas e externas para aquele fim".

O envenenamento simbólico de parte da população era feito com muita competência e a própria mídia apresentava possíveis antídotos, além do golpe que estava sempre presente no horizonte.Sem registros históricos, um desses antídotos só não é risível porque o momento não estava para brincadeiras. A TV Paulista e a Rádio Nacional de São Paulo, que depois seriam vendidas para as Organizações Globo, numa operação até hoje contestada na justiça, propiciaram um espetáculo bizarro na semana santa que antecedeu o golpe.O apresentador do programa de rádio diário, "A hora da Ave Maria", Pedro Geraldo Costa, foi a Jerusalém às expensas das emissoras e de lá trouxe uma cruz enorme de madeira que chegou ao Rio de Janeiro de avião e seguiu em peregrinação para São Paulo trafegando lentamente pela via Dutra, com uma parada simbólica em Aparecida. Nas proximidades da capital foi içada por um helicóptero e suavemente depositada no Vale do Anhangabaú em meio a multidão convocada pelo rádio e pela TV para orar junto à cruz pelo país. Episódio esquecido que, no entanto, se articula com as marchas religiosas e golpistas do período, insufladas pela mídia.

Como depois as pesquisas do Ibope mostraram, essas multidões arregimentadas pelo conluio igreja-meios de comunicação representavam parcelas minoritárias da população. A maioria apoiava o governo Jango e a sua política reformista. Mas até hoje, passados 50 anos, o golpe ainda é apresentado pela mesma mídia como tendo sido respaldado pelo povo. Foi apenas por aqueles que se deixaram levar pela insidiosa campanha midiática do início dos anos 1960.

Apesar do desfecho trágico que levou o Brasil a uma ditadura sanguinária, em termos de mídia estávamos melhor naquela época do que hoje. Nas bancas, a Última Hora era a alternativa aos jornais reacionários, a TV Excelsior abria espaço para o contraditório e algumas emissoras de rádio mantinham-se alheias as pressões golpistas, como a 9 de Julho de São Paulo, cassada pela ditadura.

Hoje nem isso temos, possibilitando que apenas uma versão, a dos golpistas, continue circulando pela mídia tradicional.

O "esquecimento" de figuras como a de Mário Wallace Simonsen e de episódios como a da cruz que veio de Jerusalém são propositais.

Se lembrados poriam em cheque a ameaça comunista e o apoio espontâneo das massas ao golpe.Versões distorcidas, bem ao gosto do Instituto Millenium que está ai como um fantasma a lembrar alguns traços assustadores dos antigos IPES e IBAD.

Transcrito de http://www.ligiadeslandes.com.br/21/04/2014/a-midia-que-ajudou-a-ditadura-hoje-e-pior-que-no-passado/

domingo, 5 de julho de 2015

"Bancada evangélica reflete a sociedade: conservadora, violenta e desigual

Dia-logar: transcender a palavra: "Bancada evangélica reflete a sociedade: conservad...: Para o professor de Antropologia Ronaldo Almeida, da Unicamp, Brasil vive ambiente de intolerância generalizada fincado em três palavras: ó...

"Bancada evangélica reflete a sociedade: conservadora, violenta e desigual"

Para o professor de Antropologia Ronaldo Almeida, da Unicamp, Brasil vive ambiente de intolerância generalizada fincado em três palavras: ódio, fobia e vingança

Na última quinta-feira (2), a Câmara aprovou a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crime hediondo. O articulador e principal entusiasta da votação foi o presidente da Casa, Eduardo Cunha. Evangélico, Cunha é um dos principais nomes da chamada "bancada da Bíblia", que congrega 75 deputados.

No mês passado, a menina Kaylane Campos, de 11 anos, foi apedrejada ao sair de um culto de candomblé no Rio de Janeiro. Os suspeitos do ataque são participantes de uma igreja evangélica.

São duas manifestações do comportamento evangélico – notadamente das denominações neopentecostais – que, mais do que perfilar esse segmento da população, refletem uma onda mais conservadora que abrange a sociedade toda, na opinião do professor Ronaldo Almeida, professor de Antropologia da Unicamp e diretor cientifico do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).



Caso: Avó de menina vítima de intolerância religiosa denuncia outros casos

Para o pesquisador, o Brasil vive um conservadorismo que pode ser percebido em três sentimentos que têm impulsionado a população: o ódio (contra os gays, as religiões diferentes), a fobia (é tanto medo que boa parte dos brasileiros aprova legislação mais permissiva em relação ao porte de armas) e a vingança (refletida no apoio da maioria à redução da maioridade penal).

Confira a entrevista abaixo:

iG: Esses casos recentes de intolerância religiosa no Rio de Janeiro podem ter relação com essa guinada à direita que vive o Congresso Nacional, com a bancada evangélica tão em evidência?

Ronaldo Almeida: No Brasil, o que se consolida é o pluralismo no interior do cristianismo, cujo movimento principal são católicos se tornando evangélicos. Esse aumento do contingente vai além dos templos, se reflete no âmbito da política, da economia, da mídia. A partir dos anos 2000, começou um movimento mais agressivo de influência dos fundamentalistas evangélicos que foi além do espaço que antes era ocupado por essa bancada no Congresso. Até então, os parlamentares dessa base se juntavam em comissões específicas, como a de Comunicação – até pelo interesse em espaços de mídia. Nos últimos anos, a área de influência foi alargada para a discussão sobre moralidade pública.

Como no caso da comissão de Direitos Humanos...

Em 2010, o José Serra [candidato à Presidência pelo PSDB] colocou o pastor Silas Malafaia para atacar a Dilma [à época candidata pelo PT] sobre o tema do aborto. Foi o início. Depois, com Dilma já no poder, o PT fez aquela besteira de entregar a Comissão de Direitos Humanos para o PSC [Partido Social Cristão]. O presidente, como todos sabem, foi o deputado Marco Feliciano. Na comissão de Direitos Humanos, esses religiosos acharam um espaço para lidar com temas morais. E essa comissão, que antes cuidava das minorias, como a causa indígena, começou a ter uma pauta moralista, a travar uma disputa pela moralidade pública, a replicar aqui temas do fundamentalismo norteamericano, como o ensino religioso e o criacionismo.

E que vai além disso, não é? Muitos dos parlamentares da bancada evangélica compõem também a conhecida bancada da bala, que pede a revogação do Estatuto do Desarmamento...

O que está acontecendo agora no Congresso é uma onda de conservadorismo, mas uma onda quebrada, que quebra para vários lados. Por exemplo, Eduardo Cunha está à frente da bancada da segurança e da evangélica. Há, de fato, um discurso mais moralizador, de contenção ao secularismo, de contenção a uma série de direitos historicamente conseguidos no âmbito progressista. No lugar do que já se conquistou, os conservadores têm três projetos que dão tona às causas que defendem: o Estatuto da Família [determina que apenas a união de um homem e uma mulher pode constituir uma família, além de restringir a possibilidade de adoção por casais homossexuais], o Estatuto do Nascituro [lei que garante proteção jurídica aos embriões, o que eliminaria a possibilidade de aborto legal em qualquer caso, inclusive o de estupro] e a Cura Gay [projeto que permite aos psicólogos promover tratamento com o objetivo de curar a homossexualidade]. É uma proposta moralizante e que busca regular a família e a sexualidade da população brasileira. 

São causas que ganham apoio mesmo fora do âmbito evangélico fundamentalista, não é? Porque a população é conservadora.

Sim. Não é só religião. É uma moral da sociedade que não admite essas coisas. Tanto que, na defesa do ensino religioso, católicos e evangélicos estão unidos. 

O mais grave desses casos recentes de intolerância religiosa é o conservadorismo atrelado à violência.

Na questão religiosa, os fundamentalistas acabam por fomentar a ação violenta. O que não é novidade: basta lembra que o episódio do pastor da Igreja Universal que chutou uma imagem foi em 1995. É a cultura de demonizar o outro, de vilipendiar as outras religiões. Tem uma coisa cínica no Malafaia: na prática, ele diz: “o Estado laico tem de garantir que eu posso demonizar o outro”. É o oposto da noção clássica do protestantismo: de liberdade individual. Mas, no fundo, o que a bancada evangélica mostra são expressões de coisas mais profundas da sociedade: conservadora, violenta, hierárquica e desigual.

Somos, os brasileiros, violentos e conservadores?

O que vejo é um ambiente de intolerância generalizada na sociedade, uma intolerância fincada em três palavras: ódio, fobia e vingança. Ódio de quem pensa diferente de mim, como o gay e aquele que tem uma religião diferente, medo de tudo, o que me faz defender o armamento, e sede de vingança, o que me faz querer que haja a redução da maioridade penal. Ódio, fobia e vingança, são as três palavras tidas como fonte de energia, canalizadas e espalhadas pela sociedade. A sociedade é violenta, o Estado é violento. É uma lógica de guerra. O jogo democrático admite adversário, mas no Brasil nos tratamos como inimigos.

Como isso aconteceu?

Ainda estamos em uma disputa político/cultural, mas os setores mais progressistas estão perdendo. Estão em desvantagem porque perderam porta-vozes também. A esquerda, por exemplo, ela tem culpa porque a conquista dos direitos era pauta dela. Agora, nesse cenário político tenebroso, quem está podendo falar de direito, de democracia? O medo é se vamos aprofundar.

Como reverter essa situação?

A expectativa é de que tenha uma contra-ofensiva: bons pastores, mais igrejas inclusivas. A boa notícia é que, quanto mais o País se torna evangélico, mais os evangélicos se tornam brasileiros. Isso significa religiosos não praticantes e mais circulantes, que buscam conveniência. Se eu quero louvor, vou a determinada igreja. Se quero estudo bíblico, vou a outra. E assim vou calibrando minha espiritualidade.

Transcrito de: http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2015-07-04/bancada-evangelica-reflete-a-sociedade-conservadora-violenta-e-desigual.html

sábado, 4 de julho de 2015

Onde parou o evangélico na bancada? A microfísica do poder atribuído pelas igrejas

Dia-logar: transcender a palavra: Onde parou o evangélico na bancada? A microfísica ...: Antonio Carlos Ribeiro* A atuação da bancada evangélica – uma composição de cerca de 75 deputados e senadores, eleitos por setores de i...

Onde parou o evangélico na bancada? A microfísica do poder atribuído pelas igrejas

Antonio Carlos Ribeiro*

A atuação da bancada evangélica – uma composição de cerca de 75 deputados e senadores, eleitos por setores de igrejas evangélicas – que chegou ao poder pelas eleições de outubro passado, com uma composição logo identificada como a mais conservadora desde a ditadura militar, provocou duas reações. A primeira, dos que os elegeram, os grupos mais conservadores das igrejas pentecostais, que deram ‘glória a Deus’ pela conquista histórica e ganharam, finalmente, alguma ‘cidadania’ representativa. A outra, de setores progressistas das igrejas cristãs ecumênicas, que relutaram em esconder a decepção, empenharam-se pelo projeto político já em andamento e só descansaram após a vitória dos partidos progressistas na eleição presidencial.

Após o êxtase, a bancada evangélica (da bíblia) se articula com as da segurança (bala) e  do agronegócio (boi) para alcançar o retrocesso político de 40 anos em apenas seis meses 

Após o segundo turno da eleição, começou o golpismo que mobilizou as forças mais obscurantistas do país, recrudescendo o já ocorrido nas eleições de 2010. Todos sabiam o que significavam as propostas do projeto vitorioso, ao mesmo tempo começaram as reviravoltas, as lutas de bastidores, o desmonte do projeto que a população brasileira escolheu. O golpismo manteve as cores e as estratégias de meio século atrás e o novo ano começou sob a égide do ressentimento frente à decisão popular. No entanto, o pior golpe para o mundo evangélico foi deparar-se com os parlamentares que elegeu. Na Câmara, dos 11 membros da diretoria, oito respondem a processos, dos quais quatro já foram condenados. Alguns têm ficha criminal extensa. Aí as igrejas se surpreenderam com o grupo integrado por ‘evangélicos’.. 

A perplexidade da população frente às igrejas cristãs representadas nesses parlamentares logo se mostrou. Ao mesmo tempo, começou uma articulação para a manutenção dos eleitos e, sobretudo, de sua legitimidade dada pelo voto das igrejas em resposta à sociedade. O sentimento é o da falta de esperança nesta ‘diretoria’ oriunda da igreja, que só após ser eleita em assembleia ficou visível para o conjunto dos eleitores. Há quem gostou, quem ficou indiferente, quem não sabe como foram eleitos, quem se decepcionou profundamente, e até quem já escolheu outra igreja na qual congregar, por prever, pela vivência de fé e de experiência de vida, que o grupo eleito não estava preparado. Houve quem marcou prazos para o primeiro conflito. E ainda quem se dispôs a mediar conflitos, buscar alternativas e pedir uma semana de oração, para a comunidade não se desintegrar com o mal-estar. 

No primeiro semestre a situação política se agravou, o golpismo encontrou resistências, a sociedade rejeitou mais fortemente que o esperado e chegaram os impasses. Na crise que se agudiza entre os recursos da corrupção, as denúncias das estratégias surgidas nos plenários, da bancada sucumbido – já distanciada de sua base eleitoral – e evocando razões próprias, começam os escândalos. O presidente eleito da Câmara dos Deputados, já conhecido por sua capacidade de conseguir acordos nos bastidores, tendo que pagar dívidas de campanha aos financiadores, não se furtou em assegurar o grupo em torno de si, e nem de ameaçar. Dos parlamentares eleitos à presidente da República. A bancada de maioria absoluta masculina e já atrelada às bancadas do agronegócio e da segurança, se entregou sem resistência. Os demais parlamentares e a Presidente, vencem algumas batalhas e perdem outras. 

Se o maior impacto da crise das igrejas aparentemente passou, pelo distanciamento do contato com a comunidade, a crise maior se estabelece. Com os representantes das igrejas e o caos surgido da gestão toma-lá-dá-cá própria do parlamento, com a bancada que manteve lobos muito espertos e jovens cordeiros ingênuos, que apõem a assinatura sem discutir, nem responsabilidade a assumir e sequer entrevistas a dar, já que compõem a raia miúda do Congresso, parte significativa exercendo a primeira legislatura. Sequer se destacam, já que são somente votos, dados sem questionamento, levados de roldão por lideranças de dentro e de fora. 

Se nos três dias de cada semana, contados a cada hora, minuto e segundo passados na casa legislativa, o alívio fica sempre para a 4ª ou 5ª feira, se houver votação importante, em sessão na qual faltar significa alta traição, como com Idi Amin Dada - esconjurados todos os demônios do cozinheiro que virou general e ditador de Uganda no período de maior repressão da nossa ditadura (1971-79) - dos quais alguns desses rapazes que atuaram nas lideranças da juventude das igrejas sequer ouviram falar. Esse fato é fundamental para que possam assumir o papel desses ‘demônios’ chamando-os, suavemente, de espírito patriótico e democrático. 

Acresça-se a isto a baixa formação política, a ligação a partidos surgidos nos últimos anos, filhos de pastores cada vez mais tradicionais, autoritários e moralmente rígidos, apesar da flacidez física e emocional imposta pelo tempo. As respostas, propostas no desespero das igrejas que representam, é ainda mais frágil e com pouca expectativa. As ‘irmãs e irmãos na fé’ dizem que á uma fase, que vai ser superada e que estão no caminho certo de defesa da família – valor fundamental, apesar das diversas ‘tentações’ abalarem casamentos – amplificando a crise e fazendo surgir soluções de ‘curativo’ na realidade que pede cirurgia. 

Os novos parlamentares são soldados armados com o mandato, seguindo generais de apenas mais idade e um lema a ser seguido: a preservação da família e da igreja – sempre conseguindo recursos, se possível emissoras de rádio – e a sociedade quando for possível. Vai lutar neste caso, mas com a certeza de ter ‘salvo’ o básico. Não importa o que venha, serão guardados e protegidos, não se animarão a consultar suas bases – já que não conhecem a Câmara, nem a política e nem o poder – tarefas sempre dos líderes de sempre – com ordens objetivas a executar e a própria crise emocional, sob o confronto de uma batalha para a qual não se prepararam. 

Aderir à política tradicional é a única não-opção que têm. Ou esgueirar-se pelos cantos dos corredores, escadas e rampas do Parlamento, até os quatro anos se passarem e poderem voltar à pequena cidade, igreja, vida familiar. Ou ficarem por lá ad aeternum, com ‘jeitinho brasileiro’ aprovando uma emenda em 25 anos, como Bolsonaro. Parece que as velhas lideranças – sem perspectiva, formação, amoldadas à corrupção e justificadas por razões muitas – não tinham muito a deixar aos que as sucederam, da própria família, da mesma igreja e com a experiência de retiros, congressos e convenções. 

O país vive uma lacuna absolutamente inusitada de legisladores, com demandas monumentais resultantes dos avanços da década. Em todas as áreas há projetos a serem aprovados, lógicas novas de um mercado que cresceu, práticas de implementação a serem revistas, propostas inéditas que exigem formação e especialização, e paradigmas que já mudaram, estabelecendo novos vetores, parâmetros e dimensões. E as igrejas agora percebem que seus ‘jovens valorosos’, ‘grandes lideranças’ em que projetaram ‘muitas expectativas’, se mostram aquém do esperado em seu tempo e campo de atuação. Sem falar na ponte inexistente entre as igrejas e a sociedade. Quem vai mediar os conflitos, propor soluções, já que pedir a semana de oração já indica o caos?! 

Em meio ao sofrimento, as Igrejas que os elegeram, precisarão ‘aprender a aprender’, suportar serem ‘provadas na fornalha da aflição’ (Is 48.10) e redescobrir o próprio chão. Lembrar do que lhes será cobrado para poder dizer ‘não’ e ‘sim’. Até que percebam e purguem seus próprios erros, depurem a própria teologia de intervenção na vida social e ajustem o equilíbrio entre seu papel na sociedade, que Luther King Jr chamou de ‘ser a consciência crítica do Estado’. Só depois poderemos debater a intolerância.

Transcrito de Novos Diálogos

* Mestre e Doutor em Teologia e Pós-Doutor (PUC-Rio), jornalista, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB) e Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT) - Campus Araguaína

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Dia-logar: transcender a palavra: Vitória na maioridade prova que a “onda conservado...

Dia-logar: transcender a palavra: Vitória na maioridade prova que a “onda conservado...: Jean Wyllys* A tentativa demagógica e reacionária de Eduardo Cunha e sua “base aliada”— composta pelas bancadas do boi, da bíblia e da ...

Vitória na maioridade prova que a “onda conservadora” pode ser derrotada

Jean Wyllys*

A tentativa demagógica e reacionária de Eduardo Cunha e sua “base aliada”— composta pelas bancadas do boi, da bíblia e da bala, o baixo clero dos partidos fisiologistas e corruptos e a ultra-direita — de usar o medo para reduzir a maioridade penal, por incrível que pareça, foi derrotada hoje no plenário.

Cunha perdeu.

Felizmente, a sensatez venceu o fascismo e seus discursos de ódio, aumento do estado penal, criminalização da pobreza e da juventude, militarização da sociedade e políticas de guerra.



A insegurança pública é um problema profundo e complexo que requer soluções sérias e não medidas propagandísticas — cuja ineficácia e prejudicialidade já foram comprovadas em diferentes lugares do mundo — como a que estava hoje em debate, cujas consequências teriam sido catastróficas.

O lugar de crianças e adolescentes não é nos presídios, mas nas escolas, e isso foi, felizmente, compreendido por muitos deputados e deputadas. Apesar do autoritarismo de Cunha, da repressão policial que vivemos mesmo dentro do Congresso, tendo que respirar gás lacrimogêneo e intervir para parar a violência contra manifestantes, finalmente a sensatez triunfou.

Não foi fácil e não foi, apenas, uma vitória nossa, dos e das parlamentares de diferentes partidos que defendemos os direitos humanos. Sem a mobilização e pressão social, nós teríamos sido derrotados, e essa é uma lição da qual devemos aprender.

Vencemos porque dezenas de movimentos sociais, coletivos culturais, entidades representativas de estudantes, trabalhador@s, organizações de direitos humanos, artistas, jovens e milhares de pessoas se articularam, nas ruas e nas redes sociais, e fizeram uma campanha pedagógica, séria, com argumentos, dados, informação e muita honestidade intelectual, para convencer uma parcela importante da Câmara de que a redução não era solução, impedindo que Cunha alcançasse os 308 votos necessários para aprovar a PEC 171.

Quando começou esta batalha, tudo parecia anunciar que seríamos derrotados, mas a persistência, a inteligência e o esforço de muita gente nos ajudaram a mudar esse quadro. A unidade de diferentes setores da sociedade — que incluiu atores tão diversos como o parte do movimento LGBT e a igreja católica — também foi fundamental.

Essa vitória prova que a tal “onda conservadora” pode ser derrotada. Muitas vezes, o que parece ser um consenso reacionário é, na verdade, falta de debate, de apresentação de diferentes pontos de vista, argumentos e dados, e incapacidade do nosso lado para se articular e ser eficaz no enfrentamento de um fascismo que perdeu a modéstia e se aproveita do medo, da insatisfação, do senso comum, da desinformação promovida por parte da mídia e da falta de uma educação de qualidade, para impor uma agenda de retrocessos. Mas não são invencíveis. Dessa vez, tod@s nós fizemos o dever de casa e provamos que é possível derrotá-los.

Ainda falta, contudo, percorrer um longo caminho. Hoje devemos celebrar, mas amanhã temos que continuar trabalhando.

A redução da maioridade penal foi rejeitada, e agora cabe a nós avançar num debate sério sobre as autênticas soluções ao problema da insegurança pública. Precisamos colocar com força na agenda política a desmilitarização da polícia e da vida das favelas e das periferias, a legalização das drogas e o fim da política de guerra que não para de matar e encarcerar a juventude pobre e negra. Precisamos combater o racismo institucional e a criminalização da juventude e da pobreza. Precisamos cobrar um debate nacional profundo sobre a educação pública de qualidade que o Brasil precisa e hoje não tem, e isso significa também discutir prioridades orçamentárias, numa conjuntura em que a resposta do governo à crise econômica é fazer ajuste na educação para garantir o superávit primário.

Precisamos colocar em discussão uma mudança radical na concepção de cidades atualmente imperante, que divide o território em dois e deixa a metade mais pobre destituída de cidadania, de saúde, de educação, de transporte público de qualidade, de oportunidades de trabalho digno, de acesso à cultura e às artes. Precisamos mudar o modelo econômico e social que gera essa sociedade cada vez mais violenta.

A insegurança pública não vai ser reduzida magicamente, da noite para o dia, com leis penais e mais polícia. Esse tipo de “solução” é uma mentira. Não funciona em nenhum lugar do mundo. E é uma maneira desumana e egoísta de encarar o problema. A violência e a insegurança não vão ser reduzidas senão como consequência da redução da desigualdade, da ampliação da cidadania e da garantia de direitos e oportunidades de viver uma vida digna.

Redução não é solução, mas há soluções.

Há soluções que demandarão tempo, dinheiro e políticas de curto, médio e longo prazo. E se não quisermos que a demagogia punitiva e o pesadelo orwelliano se imponham no futuro, precisamos encarar o problema de fundo com soluções de fundo. Não apenas para vivermos mais segur@s, mas principalmente para vivermos numa sociedade mais justa.

*Deputado Federal (PSOL-RJ) e professor universitário

sábado, 20 de junho de 2015

"Laudato Si'" amplia o cuidado de igrejas e povos ...

Dia-logar: transcender a palavra: "Laudato Si'" amplia o cuidado de igrejas e povos ...: Genebra, Suíça  - O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) acolheu a encíclica ‘Laudato Si', do Papa Francisco, lançada em 18 de junho, que ...

"Laudato Si'" amplia o cuidado de igrejas e povos com nossa casa comum, diz o CMI

Genebra, Suíça  - O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) acolheu a encíclica ‘Laudato Si', do Papa Francisco, lançada em 18 de junho, que destaca o que as igrejas e organizações ecumênicas vêm fazendo há décadas sobre os cuidados com as questões de justiça da terra e do clima.

Papa Francisco, autor da Carta Encíclica 'Laudato Sí'

"Este é o momento de focar a nossa responsabilidade comum como seres humanos, e na forma como nós, como igrejas, devemos apoiar aqueles que estão prontos para fazer as mudanças necessárias", disse o Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, secretário-geral do CMI.

"Esta encíclica demonstra como todas estas questões estão no centro da nossa fé cristã, e como nós cristãos, devemos tratá-las como igrejas junto a todas as pessoas que se importam com nosso futuro comum, como as questões de justiça e de paz", acrescentou.

Tveit também destacou o reconhecimento positivo para "outras Igrejas e comunidades cristãs que têm tido uma preocupação profunda e um reflexo precioso" (n.º 7), especialmente as referências ao Patriarca Bartolomeu.

O líder executivo do CMI ecoou a afirmação do Papa sobre a necessidade de diálogo entre política e economia (189-198), e a religião e a ciência (199-201), que constituem uma condição sine qua non para responder eficazmente à crise ecológica.

Referência à dívida ecológica (51-52) e à forte afirmação de que "o acesso à água potável é um direito humano essencial, fundamental e universal" (30), também destacados por Tveit.

Dr. Guillermo Kerber, executivo do programa do CMI para o Cuidado com a Criação e Justiça Climática, apoia a afirmação clara que a mudança climática é provocada  por seres humanos e tem um impacto mais forte sobre as comunidades mais pobres e vulneráveis.


"A encíclica é uma chamada importante agir com urgência como indivíduos, cidadãos e também em nível internacional, para responder eficazmente à crise climática", disse Kerber.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dia-logar: transcender a palavra: Clérigos frente às ecléticas igrejas da zona de co...

Dia-logar: transcender a palavra: Clérigos frente às ecléticas igrejas da zona de co...: O perfil patológico das comunidades resultantes da teologia da prosperidade Os pastores / padres que surgem para atendê-las, dos quais ...

Dia-logar: transcender a palavra: Observatório no debate sobre Ensino Religioso

Dia-logar: transcender a palavra: Observatório no debate sobre Ensino Religioso: Representantes de 31 entidades religiosas ou ligadas à educação e aos estudos da religião participaram durante todo o dia desta segunda-fei...

Observatório no debate sobre Ensino Religioso

Representantes de 31 entidades religiosas ou ligadas à educação e aos estudos da religião participaram durante todo o dia desta segunda-feira (15 de junho) de audiência pública convocada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, para debater a forma legal do ensino religioso nas escolas brasileiras. O painel de expositores foi formado por 10 representantes de grupos religiosos significativos no país, além de 21 selecionados pelo ministro (em meio aos 227 inscritos através de convocação pública) por conta de sua “expertise” sobre a temática. Todos eles enviaram contribuições prévias por escrito e apresentaram uma síntese das suas posições na audiência, que transcorreu das 9 às 19h30 e foi transmitida ao vivo pela TV e Rádio JUSTIÇA (veja aqui e abaixo).




Entre os participantes estava Gilbraz Aragão, coordenador do Observatório das Religiões da UNICAP e membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos do governo do Brasil (SDH-PR) – a quem representou. O professor Gilbraz defendeu que “… longe de se embasar no ensino de uma religião ou das religiões na escola, o Ensino Religioso em nosso Estado laico se justifica pela necessidade de formação de cidadãos críticos e responsáveis, capazes de discernir a dinâmica dos fatos religiosos que permeiam a vida pessoal e social. As diferentes crenças e expressões religiosas, bem como a ausência delas por convicções filosóficas, são aspectos da realidade que devem ser socializados e abordados como questões socioculturais, que contribuem na fundamentação das nossas ações. O Ensino Religioso deve tratar pedagogicamente das atitudes de abertura e cuidado para além de si, que existem entre e para além de todas as tradições religiosas, deve resgatar os valores humanos que as espiritualidades podem trazer para a educação dos nossos filhos…” (veja abaixo a íntegra do texto apresentado).




A audiência pública buscou subsidiar o julgamento da ADI nº 4.439, que discute os modelos de ensino religioso em escolas públicas. Ao encerrar a sessão, o ministro Barroso afirmou que a democracia contemporânea contempla três dimensões que devem ser equilibradas: a dimensão representativa, feita por meio do voto, a dimensão substantiva, na qual o Estado deve proteger direitos e a dimensão deliberativa, baseada no debate público e apresentação de razões. Com a audiência, o ministro colheu subsídios para que se obtenha “o melhor equilíbrio possível entre esses elementos, votos, direitos e razões”, no que diz respeito ao Ensino Religioso em país de liberdade religiosa e Estado laico. Ele observou que são duas linhas defendidas: a primeira sobre a possibilidade de que esse ensino seja confessional, ou seja, sobre determinada religião e ministrado por seu representante; e a posição contraposta, que foi majoritária na sessão, é a de que a aprendizagem deve ser de natureza histórica e filosófica, ministrada por estudiosos da religião concursados. Segundo o ministro, o segredo do mundo moderno e do constitucionalismo democrático é encontrar mecanismos que permitam que cada pessoa viva a sua crença e, ao vivê-la, tenha a capacidade de respeitar a crença do outro. Espera-se que no próximo semestre prossiga o julgamento do caso.




Aproveitando o ensejo e para ir sedimentando os tempos mais claros que virão, no dia 16 (terça), o professor Gilbraz, junto de Francielle Morez e Alexandre Brasil, do Comitê da Diversidade Religiosa, continuaram a tratar ainda da temática com a Coordenação Geral de Educação em Direitos Humanos da SDH-PR e delegados da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação. Aí foram realizados encaminhamentos no sentido de incluir as questões do Ensino Religioso na formulação da Base Nacional Curricular Comum para o Ensino Básico e demais diretrizes curriculares, além de se agendar um Seminário de articulação das especializações e licenciaturas em Ensino Religioso, no fito de incrementar a formação dos seus professores. Com isso, esperamos que avance a regulamentação e implementação de processos de aprendizagem trans-religiosa no país, de vez que a consciência histórica e hermenêutica das religiões é muito importante para a formação esclarecida e dialogal dos cidadãos brasileiros.


Íntegra do POSICIONAMENTO DO CNRDV-SDHPR SOBRE ENSINO RELIGIOSO

O Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (instituído pela Portaria n. 18/2014 de 20 de janeiro de 2014), preocupado com o debate sobre o Ensino Religioso nas escolas públicas, por considerar a importância da educação para o diálogo entre as tradições de fé e convicções filosóficas no Brasil e por considerar a necessidade de consciência histórica e hermenêutica das religiões para a formação esclarecida e dialogal dos cidadãos, vem manifestar perante as autoridades e a sociedade o seu posicionamento sobre a regulamentação da aprendizagem desse campo de conhecimento humano e componente curricular na formação básica das nossas crianças.

Lembramos que o Ensino Religioso já é disciplina das escolas públicas de ensino fundamental (Cf. § 1º do art. 210 da Constituição Federal) e parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à diversidade cultural do Brasil e vedadas quaisquer formas de proselitismo religioso. Trata-se, assim, de um componente curricular no âmbito da educação sistemática e formal, articulado com os princípios e fins da educação nacional, devendo contribuir para o pleno desenvolvimento do educando e seu preparo para a vida cidadã (Cf. Art. 2º da LDB n° 9.394/96). O Ensino Religioso integra a base comum de conhecimentos da Educação Básica, a qual é constituída por saberes e valores produzidos culturalmente, compreendidos como essenciais ao desenvolvimento das habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania (Cf. art. 14 da Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 2010).

Por isso, e para que avance o processo de regulamentação cidadã do Ensino Religioso, o Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa defende que o Ministério da Educação publique diretrizes curriculares nacionais para o Ensino Religioso, a fim de orientar os sistemas de ensino na elaboração de suas propostas pedagógicas, em consonância com os pressupostos legais e curriculares em vigor; e defende igualmente que o Conselho Nacional de Educação emita diretrizes curriculares nacionais para a formação dos professores de Ensino Religioso, em curso de licenciatura, nos termos do art. 62 da LDB nº 9.394/96. Defende também que o Supremo Tribunal Federal aceite a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI nº 4.439) proposta pela Procuradoria Geral da República, para assentar que o Ensino Religioso em escolas públicas só pode ser de natureza não-confessional.

Longe de se embasar no ensino de uma religião ou das religiões na escola, o Ensino Religioso em nosso Estado laico se justifica pela necessidade de formação de cidadãos críticos e responsáveis, capazes de discernir a dinâmica dos fatos religiosos que permeiam a vida em âmbito pessoal, nacional e mundial. As diferentes crenças e expressões religiosas, bem como a ausência delas por convicções filosóficas, são aspectos da realidade que devem ser socializados e abordados como questões socioculturais, que contribuem na fundamentação das nossas ações. O Ensino Religioso deve tratar pedagogicamente das atitudes de abertura e cuidado para além de si, que existem entre e para além de todas as tradições religiosas, deve resgatar os valores humanos que as espiritualidades podem trazer para a educação dos nossos filhos. Trata-se, então, de comparar criticamente e interpretar os fatos religiosos nos seus contextos históricos, para que as novas gerações possam decidir com mais liberdade sobre essa dimensão de transcendência na vida.

Porque religião não se ensina propriamente na escola e sim nos ritos dos grupos religiosos, mas se pode e deve refletir no ambiente escolar sobre o fenômeno humano de abertura para a transcendência, em busca de interpretações mais universais e significados mais profundos para o que é experimentado como sagrado em cada cultura. Todas as pessoas têm direito ao esclarecimento das crenças da humanidade e para isso o Ensino Religioso deve avaliar as notícias religiosas em seus contextos, estudando as religiões como questão e não como dado. O Ensino Religioso, compreendido como campo de aplicação pedagógica da área de conhecimento das Ciências da Religião, numa visão transdisciplinar, não objetiva transpor conteúdos enciclopédicos e muito menos doutrinais para um ensino catequético, mas o desenvolvimento de processos de aprendizagem participativos, de construção de conhecimentos através de projetos de pesquisa, em conexão com as pautas de estudo e engajamento dos cientistas da religião. 

Então, o Ensino Religioso deve refletir sobre as experiências humanas de transcendência, através de eixos curriculares como culturas e tradições, textos sagrados e teologias, ritos e ética das tradições espirituais. Mas, sobretudo, o educador precisa compreender e se envolver com a situação social e religiosa dos educandos a fim de construir com eles conteúdos programáticos contextuais para o Ensino Religioso. O docente precisa interagir com o contexto concreto das religiões na vida dos educandos, o que inclui vivências contraditórias e aspectos desumanizadores e opressivos, para promover uma tomada de consciência desmistificadora das religiões. As práticas religiosas podem nos libertar do egoísmo ensimesmado, mas por vezes as religiões precisam se emancipar de degenerações neuróticas e alienantes. O Ensino Religioso, assim, deve promover uma ação educativa esperançosa, em que o anúncio e a utopia desempenham um papel também reconstrutivo e transformador das religiões.

Hoje o mundo está sendo abalado por notícias de um fundamentalismo que se diz islâmico. Mas não devemos esquecer que o termo fundamentalismo surgiu entre cristãos norte-americanos, que no começo do século XX criaram um movimento político-teológico para combater os outros cristãos, liberais, que praticam uma interpretação informada da Bíblia e aceitam as causas modernas do feminismo e do socialismo. Assistimos ao crescimento de comunitarismos fundamentalistas agora em várias religiões e em todas as igrejas, também no Brasil, onde certos grupos e lideranças exercitam uma leitura pretensamente literal de textos sagrados para revestir um projeto conservador de dominação político-cultural.

Aí se opõe um “Deus” pai sério e punitivo a uma divindade amorosa de justiça e compaixão; uma igreja exclusivista, rígida e hierárquica, a movimentos ecumênicos em favor da terra eco-consciente; manifesta-se um apego teológico ao pecado original, contra uma espiritualidade da criação e sua compreensão de bênção original; prega-se a intolerância ao estrangeiro e ao “estranho” moral, contra o abraço ao feminino e aos outros gêneros; o medo da ciência, enfim, ao invés do incentivo à sapiência. São discursos que hostilizam em especial as telúricas religiões indígenas e afro-negro-brasileiras, consideradas idólatras. Contra eles devemos invocar a laicidade: o Estado brasileiro é laico e pluralista, acolhe todas as religiões sem aderir a nenhuma. Não é lícito que uma religião imponha à nação seus pontos de vista e não podemos deixar os espaços públicos republicanos ser ostensivamente ocupados e controlados por quaisquer comunitarismos ou igrejas. Uma autoridade pode ter convicções religiosas e filosóficas, mas não é por elas, mas pelas leis e pelo espírito democrático que deve governar.

Cabe ao Ensino Religioso, justamente, esclarecer esses descaminhos da vivência espiritual e aquelas tentativas de controle do domínio público por igrejas, através da desconstrução histórica dos extremismos fundamentalistas e pela conscientização do fenômeno religioso genuíno. A experiência religiosa é sempre uma busca humana frente à morte, às limitações e aos conflitos que nos rondam. É busca e projeção de transcendência que, quem alcança, interpreta como manifestação poderosa e mais-que-humana de sentido, de uma outra realidade, que se tenta comunicar por símbolos, narrativas mitológicas, rituais litúrgicos, com consequências éticas e interditos morais. Fundada no respeito a esse poder criador que nos antecede e ultrapassa, a experiência religiosa, nas suas diversas formas históricas, é uma aposta na possibilidade de vida fraterna com os outros e com o cosmos.

Esperamos firmemente, então, que o Ensino Religioso se consolide para promoção do direito a esse esclarecimento das tradições de fé e convicções humanas, em prol da liberdade religiosa e de uma sociedade profundamente democrática, protegida pelo Estado laico. Porque, enfim, a religião pode ser antídoto para a loucura de existir:  “O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas, bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue” (Guimarães Rosa, Grandes Sertões). 

Fonte: http://www.unicap.br/observatorio2/?p=2011

domingo, 14 de junho de 2015

STF começa o debate do Ensino Religioso Confessional no Estado que é Laico desde 1891

Dia-logar: transcender a palavra: Ensino religioso confessional é inconstitucional: Antonio Carlos Ribeiro* Rio de Janeiro - A Lei 3459/2000, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que...

Ensino religioso confessional é inconstitucional

Antonio Carlos Ribeiro*

Rio de Janeiro - A Lei 3459/2000, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que acrescentou a confessionalidade ao Ensino Religioso ministrado nas escolas públicas do Estado, ameaçando o Estado Laico e desconsiderando claros preceitos constitucionais e cláusulas fundamentais da legislação vigente, era plenamente inconstitucional e por isso foi rejeitada.

No entanto, no início do governo continuísta de Rosângela Matheus - que atende pelo nome de Rosinha Garotinho e perdeu recentemente o mandato de Prefeita da cidade de Campos dos Goytacazes, a 300 km do Rio de Janeiro, condenada por fraude eleitoral - foi feito um acordo pelos representantes de algumas religiões, como o judaísmo, e Igrejas cristãs, como a católica e as igrejas pentecostais, sem apoio das igrejas anglicana, luterana e presbiteriana, das históricas, portanto sem encontrar consenso entre as igrejas-membro do Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (CONIC-Rio).

O objetivo desse acordo, celebrado entre religiões e igrejas com conflitos teológicos de aceitação e de interesses ecumênicos e raras atividades anuais, estritamente celebrativas e apoios a documentos, que nunca desenvolveram trabalhos conjuntos. O que resultou, se pode ser chamado de acordo, conseguiu apenas articular interesses eclesiais e religiosos, envolvendo as igrejas evangélicas de traço pentecostal, a quem o governo propôs uma espécie de trégua religiosa com o objetivo de derrubar a proposta da lei 1.840/2003, de autoria do Deputado Estadual Carlos Minc, cujo veto da governadora foi mantido no Plenário da Alerj.

O jogo era simplesmente político e a decisão era claramente inconstitucional, como foi denunciada pelo Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio), e lembrada aos deputados no momento da votação, mas solenemente ignorada em nome de interesses políticos palacianos. Houve ainda a intervenção do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper), do qual igrejas cristãs como a católica, a luterana e anglicana participam, esclarecendo os quatro tipos de ensino religioso vigentes no país, entre os quais os das escolas confessionais, enfatizando que o Ensino Religioso das Escolas Públicas deveria ser laico, assim como é o Estado.

Foto: Pedro Ladeira - Folhapress

Por esta razão, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) proposta pela Vice-Procuradora Geral da República, Deborah Duprat, é perfeitamente razoável. O ensino religioso confessional e os professores que representam as religiões devem atuar nas escolas das igrejas e religiões, legítimas para esse objetivo, mas não para ensinar doutrinas religiosas nas escolas públicas. Pela mesma simples razão: depois do fim do Padroado, o Estado é laico! Entendimento que levou o imperador D. Pedro II a mandar prender quem desconsiderou a autonomia do Império.

A afirmação de que o ensino religioso confessional pode ser plural não é rigorosamente verdadeira. A prova disso é que a articulação para a aprovação da referida lei em plenário envolveu, além das benesses do Estado, a indicação de organismos das igrejas e religiões – como a Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil, sem condições legais para a gabaritação de professores – , a produção de material didático, os cursos de preparação para os profissionais que atuariam nas escolas e até articulações de lideranças religiosas de outros estados para apoiarem a iniciativa e levarem às suas assembleias legislativas.

Foram escritos artigos publicados pelo Boletim Rede, do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (CAALL), em fev. e mar. 2004, citados no artigo Religião nas Escolas Públicas: questões nacionais e a situação no Rio de Janeiro, dos pesquisadores Emerson Giumbelli e Sandra de Sá Carneiro, publicado na Revista Contemporânea de Educação, v.1, n.2. - jul/dez 2006, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Universidade de São Paulo (USP) organizou em 2006 a mesa redonda As Igrejas na luta pela Educação Pública, através da Faculdade de Educação (FE), debatendo a decisão da Assembleia Legislativa do Rio como uma proposta que atende a interesses político-eclesiais, mas sem sustentação legal.

A lei aprovada possibilita a políticos populistas práticas reprováveis, ao propiciar acordos confusos e o uso sem critérios da expressão religiosa, especialmente em ano eleitoral. A associação do nome de Deus à nação, a documentos legais e até à instituição financeira, repete recursos que o fazem retroceder às épocas do Brasil colônia e império, quando o catolicismo era a religião oficial do Estado. A separação entre Igreja e Estado foi uma conquista republicana que se materializou na Constituição de 1891.

O esforço para sacramentar negócios políticos tem levado governantes e parlamentares a buscarem apoio popular, associando decisões públicas a instituições religiosas. Essa prática conheceu sua forma clássica ao aparecer na Constituição de 1988, promulgada "sob a proteção de Deus" e nas notas de cruzado, com a expressão “Deus seja Louvado”. Na situação fluminense ela tem ameaçado a ecumenicidade, a diversidade cultural e a laicidade do Estado.

Houve resistência do Movimento Inter-Religioso (MIR), ligado ao Viva Rio, surgiram editoriais no jornal O Globo e foram marcados encontros entre autoridades religiosas locais com os representantes do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper), apoiando o Ensino Religioso nos moldes da lei 9.394/96, mas apesar da denúncia dos interesses e da fragilidade do acordo de igrejas e religiões que sequer são parceiras, nada adiantou.

Surdo às denúncias capitaneadas pelo Sindicato dos Professores, o Governo Estadual, que misturava interesses eleitoreiros e religiosos, abriu um concurso público divulgando a existência de 500 vagas, mas o debate político contou com a ambição política da governante, alavancando setores do mundo evangélico, que vislumbraram o momento de se tornarem protagonistas, com sua presença crescente nos órgãos públicos, sem a percepção de que logo seriam engolidos.

Na verdade, não houve um pacto, nem mesmo no campo ecumênico, já que os sujeitos institucionais envolvidos sequer relações ecumênicas têm. Apenas um acordo de situação baseado na perenidade de uma instituição, no afã de sobrevivência política de um governo de certa popularidade, algumas ilegalidades que depois vieram à tona e baixos índices de aprovação em quase todas as áreas e que, de certo, tinham apenas o oportunismo das lideranças para lidar com sentimentos religiosos, com vistas à obtenção de resultados imediatos.

Setores das Igrejas se manifestaram em vão. Crítico do modelo do ensino religioso adotado, o frade franciscano Ludovico Garmus, da Ordem dos Frades Menores (OFM), de Petrópolis, entendeu que separar os alunos por religião é muito perigoso. "A formação religiosa não deve ser feita nas escolas", já que as "escolas devem formar no aluno uma visão geral da religião".

Percebendo outra situação prevista na lei, o jornalista Ricardo Setti, classificou a determinação de punir com o afastamento ou demissão o professor de religião que "perder a fé e tornar-se agnóstico ou ateu" de grotesca, levantando a suspeita jurídico-teológica: "como é que o governo vai provar que o sujeito perdeu a fé?" E se o fizesse, por uma lei de fundamentos jurídicos frágeis, como o Estado laico poderia demitir alguém por razões de fé?

A simples entrada em vigor da legislação, observou o Sindicato dos Professores, não garante a liberdade de culto, já que "Escola não é local de culto e liturgia. Isso é na igreja, na sinagoga, no templo de umbanda. É ali que a Constituição garante a liberdade religiosa sob o ponto de vista confessional". As críticas foram dirigidas também ao poder público estadual, já que no plano federal deve-se obediência à Constituição que proíbe à União, aos estados e municípios "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança" (art. 19).

A lei aprovada e em vigor não tem como assegurar a liberdade, nem o fim da violência e nem a crise ascendente de valores em nossa sociedade, o argumento a que se agarraram desesperadas as partes interessadas em sua aprovação. Nem mesmo facilita o diálogo religioso e a caminhada ecumênica das Igrejas. Pior: diante da dificuldade prática do ensino das diversas confissões religiosas em todas as escolas, como deveria ser garantido, poderá afastar os que antes tinham a formação de valores fundamentais, da busca do transcendente e do sentido da existência humana.

Houve um caso único e exemplar. Uma professora de religião obteve o primeiro lugar no concurso público realizado. Era uma mulher negra, da cidade de Campos dos Goytacazes e que professava a umbanda, uma religião de origem afro-brasileira. A fragilidade institucional do concurso somada ao preconceito em círculos religiosos tradicionais fez aflorar preconceitos aos borbotões: por ser mulher, negra, do interior e umbandista. Para que assumisse os direitos que lhe eram negados, sobretudo pelo acinte de ter sido aprovada em primeiro lugar, foi acionada uma instituição criada pela ex-deputado Átila Nunes, que assegurou a documentação para que o aparelho estatal evitasse outro equívoco!

Por estas entre outras razões, se espera agora que as Igrejas cristãs, em nível nacional, superem temores, conveniências e inseguranças, e se empenhem no apoio a esta Adin, já que está correto o juízo da viceprocuradora de que o Estado brasileiro é laico, que as aulas deveriam expor doutrinas, práticas, história e dimensões sociais das diferentes religiões – e até do ateísmo – , e que a autonomia dos Estados para definir seus currículos não pode atropelar preceitos constitucionais.

O risco do ensino religioso público, pago com erário do Estado Laico, é que a tomada de seu controle por entidades religiosas faça diminuir o interesse dos jovens, por ser facultativo. Os outros 25 estados, que não foram vítimas dessa situação, esperam que a justeza jurídica seja restabelecida.

Para acrescentar mais um aspecto - estritamente legal - à discussão, divulgo meu artigo Sem Ônus para os Cofres Públicos; O Estado sem Autoridade para Garantir a Laicidade no ER, Numen: revista de estudos e pesquisa da religião, v. 17, p. 69-87, 2014 (ISSN: 22366296)
http://numen.ufjf.emnuvens.com.br/numen/article/view/2829

* Doutor em Teologia, Pós-Doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Pós-Doutorando em Letras pela Universidade Federal do Tocantins (UFT/CAPES/PPGL)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Clérigos frente às ecléticas igrejas da zona de conforto

O perfil patológico das comunidades resultantes da teologia da prosperidade

Os pastores / padres que surgem para atendê-las, dos quais muitos perdem a fé, outros a saúde

Os que subsistem saem da condição de 'pecadores arrependidos' para a de 'santos blasfemadores'


quarta-feira, 10 de junho de 2015

‘Ensino religioso aumenta intolerância nas escolas...'

Dia-logar: transcender a palavra: ‘Ensino religioso aumenta intolerância nas escolas...: Encantada com o aprendizado e as crianças nos terreiros, a autora de

‘Ensino religioso aumenta intolerância nas escolas públicas’, afirma pesquisadora

Encantada com o aprendizado e as crianças nos terreiros, a autora de 'Educação nos
terreiros – e como a escola se relaciona com as crianças do candomblé', publicado
pela Pallas em 2012, Stela Guedes Caputo, pesquisou a fundo a relação da religião
afro-brasileira com a educação pública no Rio de Janeiro

Defensora da extinção do ensino religioso obrigatório, ela evidencia em suas pesquisas como essas crianças sofrem com a discriminação nos colégios. Segundo ela, o cenário tende a piorar, com o conservadorismo se enraizando cada vez mais no conteúdo das disciplinas e a pauta do Vaticano sendo incorporada.

Na entrevista ela revela como são estabelecidos os critérios da formação dos professores, os conteúdos dos materiais didáticos, as verbas destinadas para esse objetivo e suas perspectivas, além de denunciar como o modelo idealizado pelo governo está desconectado à prática nas salas de aula. Propõe, ainda, uma PEC para retirar a obrigatoriedade do ensino religioso da Constituição.

Você pode falar um pouco sobre o que originou a pesquisa do seu livro?

Eu era jornalista, trabalhava no jornal 'O Dia', e em 1992 recebi uma pauta do editor para fazer um mapeamento dos terreiros na Baixada Fluminense. Quando cheguei ao terreiro de Mãe Palmira, o Ile Omo Oya Legi, em Mesquita, vi o Ricardo Neri, um menino ogan, tocando atabaque. O real sempre surpreende e dá uma pauta melhor, não sabia que as crianças podiam ocupar cargo na hierarquia do culto. Publicamos uma matéria bem interessante sobre como as crianças aprendem no terreiro, inclusive o yoruba, e respeitam a hierarquia e a ancestralidade.

Mas com os limites de uma página de jornal, e também porque nos jornais hoje temos uma pauta e amanhã outra. Continuei estudando como as crianças aprendem no terreiro e fui fazer mestrado e doutorado na PUC e pós doutorado na UERJ, tudo em educação. Voltei ao terreiro, onde permaneci por 20 anos, e também escolhi o terreiro da mãe Beata, em Miguel Couto, e o de Égun, que é outro tipo de culto no candomblé, em Belford Roxo.

Só que as crianças começaram a dizer que havia problemas na escola. Em 1992 eu já havia escutado do Ricardo, então com 4 anos, que uma professora o chamou de filho do diabo. Achei estranho, e quando voltei em 1996 novas crianças diziam o mesmo. Já tinha havido também uma repercussão negativa, porque o Bispo Macedo comprou as fotos que a gente fez na Agência O Dia e publicou o livro 'Orixás, caboclos e guias – deuses ou demônios'?

Ele colocava de forma pejorativa as crianças. Então estabeleci dois caminhos na pesquisa: saber como as crianças aprendem, que é uma coisa inesgotável, e como são discriminadas na escola. Fiquei na escola e no terreiro, entrevistei professores de Ensino Religioso (ER) e de outras disciplinas para verificar qual era a relação. Resultou na minha tese de doutorado concluída em 2005, e esperei mais 7 anos para publicar o livro. Entendi melhor o candomblé e vi que essas crianças não mudaram de opinião. Elas tiveram filhos e constatei que na nova geração, infelizmente, é pior. As crianças estabeleciam táticas, diziam que eram católicas na escola para não sofrer. Elas têm orgulho da fé, religião, hierarquia, comunidade de terreiro, se sentem muito bem, mas do portão para dentro. Isso é o cruel de uma prática que eu chamo de discriminação religiosa e racial, porque a maioria é negra.

Você pode descrever melhor essa associação entre religião e raça?

O que aqui conhecemos por candomblé chega com os negros escravizados. Segundo Ellis Cashmore, antes do fim do tráfico de escravos, em meados do século XIX, cerca de 12 a 15 milhões de africanos foram transportados para América do Norte, Central e Sul. Edgar Robert Conrad estima que mais de 5 milhões foram trazidos ao Brasil entre 1525 e 1851. A classe dominante brasileira queria "apenas" o corpo escravizado para erguer este país sob seus interesses, mas não sabia o que vinha dentro desse corpo. A África não é homogênea econômica, política ou culturalmente, tampouco na religião.

Então o que nos marca são esses grupos que vão fazer nascer no Brasil o Xangô de Pernambuco, o tambor de Mina do Maranhão, o batuque no Rio Grande do Sul, o candomblé Angola, Jeje ou Ketu, na Bahia, sudeste e outras regiões do Brasil. Dentro do corpo vieram, portanto, os inkices, voduns e Orixás. Esse sagrado, nenhuma chibata arrancou e nem a morte é capaz de arrancar.

Sabemos que a raça não é senão um conceito político que só pode desaparecer enquanto categoria de análise social quando o racismo também desaparecer. O racismo é um sistema completo, integral. Quando você odeia alguém por sua raça você o odeia inteiramente, inclusive seu modo de crer e significar o mundo. E não podemos mais dizer que o candomblé é uma religião simbolicamente só de negros, embora majoritariamente seja. Na análise dos insultos raciais estudados por Antônio Sérgio Guimarães ele localizou insultos comuns como "negro macumbeiro". A maioria das crianças de minha pesquisa ao longo desses mais de 20 anos é negra, e todas relatam já terem sofrido esse mesmo tipo de insulto.

Qual o cenário aqui no Rio de candomblecistas, e quais as leis vigentes em relação ao ensino religioso na rede pública?

O último Censo do IBGE, em 2010, aponta que há 50.967 candomblecistas no Rio, enquanto na umbanda chega a 89.626. Os neopentecostais têm crescido muito, inclusive convertendo muitos membros de terreiro aqui e em África. Mas qualquer número sobre essas religiões nunca será preciso: historicamente perseguidos, não são religiões de conversão, e são de awô (segredo). É certo, no entanto, que o número de candomblecistas tem caído. Por outro lado muitas campanhas pelas ações afirmativas, incluindo a maior visibilidade de candomblecistas, também crescem e acho que poderemos ter um novo desenho numérico de aproximação.

Em relação às leis, na Constituição de 1988 a obrigatoriedade do ensino religioso permanece. Cria uma esquizofrenia, porque ela continua dizendo que o Estado é laico e, portanto, não temos uma religião oficial. Os estados têm autonomia, então no Rio de Janeiro, em 2000, o governador Garotinho sanciona a lei do deputado católico Carlos Dias e estabelece o ensino confessional.

Em 2004, Rosinha faz o concurso e contrata 500 professores de ER que se somam aos 364 professores na rede estadual que, desviados de suas disciplinas, já lecionavam religião. Isso se torna mais grave quando o Sindicato dos Profissionais de Educação do Rio informa que a demanda de professores é da ordem de 12 mil professores.

Ser confessional significa que cada professor confessa sua fé, e fará concurso para ela. Assim temos 68,2% católicos, 26,31% evangélicos, 5,26% de outras religiões. A Coordenação de Ensino Religioso (CER), da Secretaria Estadual de Educação, diz que em 2003 realizou pesquisa e constatou esse percentual nas religiões dos alunos.

É uma pesquisa furada porque não leva em conta que historicamente candomblecistas não revelam sua fé por conta da perseguição religiosa, pois não é de conversão e se trata de uma religião de awô (segredos), o que faz o silêncio uma de suas práticas. Mas silêncio não deve ser confundido com silenciamento. O ER é uma violência contra religiões não hegemônicas, contra os ateus e, sobretudo, contra alunos e alunas do candomblé e umbanda, os mais perseguidos.

Como isso acontece na prática?

A nossa escolarização pública é marcada pelos objetivos de catequese desde que os jesuítas chegaram em 1549. No ano seguinte constroem uma capela e um colégio, achavam que deviam estar em todos os espaços não só para fazer novos católicos, mas, principalmente, combater os não católicos. Com a reforma pombalina e a expulsão dos jesuítas em 1759 temos uma primeira tentativa de separar religião da educação, que só será realizada oficialmente com a República na Constituição de 1891. Mas de lá para cá esses setores conservadores da igreja católica impuseram derrotas aos setores laicos.

Na Constituição de 34 a religião passa a ser matéria com oferta obrigatória no currículo, na de 37 há um pequeno recuo e passa a ser uma possibilidade, no texto de 46 volta a ser obrigatória mas facultativa e, em 67, já na Ditadura, permanece obrigatória, mas sem ônus para os cofres públicos.

Hoje é ainda pior, já que só no Rio, tanto no Estado como no município, os gastos com ER são de cerca de R$ 16 milhões anuais. Não satisfeita, a Igreja católica pressiona para a assinatura da Concordata Brasil-Vaticano em novembro de 2008, quando Lula assina o acordo com Bento XVI. O artigo 11 da atual constituição é um absurdo, porque além de destruir qualquer vestígio de laicidade assegura o privilégio da igreja católica e a coloca como referência.

Se perguntar para a Coordenação de Ensino Religioso (dirigida por católicos desde sempre) ela vai dizer que esta disciplina não é proselitista, ou seja, não é para converter, é apenas para "passar valores". Muita gente se engana com isso (ou é cínica mesmo). Tão logo a Concordata foi assinada, o jornal virtual da comunidade "Canção Nova", ligada ao movimento dos católicos carismáticos, detalhou no seu artigo 11 que a educação religiosa por natureza é sempre confessional. Os iludidos (ou cínicos) precisam estar nas escolas públicas para ver o que acontece: alunos ungidos com óleo bento por serem de outra religião, humilhados por serem ateus, exorcizados por serem candomblecistas ou homossexuais.

Como a disciplina é organizada e como os professores preparam seu conteúdo?

Nas escolas do estado a proposta é que no futuro os estudantes sejam separados por turmas e assistam a aula de seu credo. Já exclui o argumento de que o ER ajude a diminuir a intolerância e amplie os conhecimentos de todas as religiões. Na prática, todos os credos estão em uma única aula desses tais "valores". Desde 2004 eu entrevistava os professores sobre que material usavam, e a maioria respondia que selecionava da bíblia o que fosse comum para católicos e evangélicos. Como isso é possível? A bíblia é um valor para quem?

Além disso, há muito texto do Padre Zezinho, Marcelo Rossi e materiais da Campanha da Fraternidade. Em 2007, a Cúria Diocesana do Rio lança a coleção didática de livros católicos. São 4 volumes de muito retrocesso não apenas porque ofende o candomblé, mas porque traz uma visão conservadora de família e mulher, e é racista porque mantém negros em papéis subalternos.

Trabalhamos há anos para que se avance na direção de uma educação multicultural crítica, antirracista e libertária e vem a Igreja com sua pauta obscurantista em rico papel couché, ilustrada pelo Ziraldo, na contra mão reacionária. E por que digo que ofende o candomblé? Porque na página 56 de um dos volumes, chamado "A Igreja de Cristo", lemos: "A Umbanda não faz uso de sacrifícios de animais em seus rituais, porque respeita a vida e a natureza".

Além de um equívoco de informação porque dependendo da linha muitas casas de umbanda fazem a oferenda de animais, trata-se de uma agressão explícita ao candomblé para quem o ritual da oferenda é estruturante. Há uns 10 anos venho discutindo, conversando, fazendo palestras sobre isso e, ao conversar com grupos de professores do município estes diziam que não era problema deles pois nas suas escolas não havia a disciplina. Eu já alertava, e em 2011 o prefeito Eduardo Paes cria por decreto a disciplina. Fez concurso e existem cerca de 400 professores de ER no município que, a exemplo do estado, também é confessional.

E como acontece a formação desses professores?

Para o concurso se exige licenciatura e credenciamento pela autoridade religiosa, o que ofende ainda mais a laicidade. Ela fiscaliza se o professor vai abandonar ou não a religião, e pode descredenciá-lo caso mude. Desde 1996 acontecem os Fóruns de Professores de Ensino Religioso do Rio, ou seja, desde antes da aprovação do confessional e do concurso. São encontros anuais que a Secretaria de Educação organiza e realiza só com esta área para fortalecer e padronizar o que chamo de missionarismo nas escolas públicas.

No material distribuído no Fórum de 2010, por exemplo, constava: "apresentar a Campanha da Fraternidade 2011, numa postura de parceria com a Igreja católica". Outra atividade agendava a celebração do "Dia de Ação de Graças nas escolas públicas".

Veja a definição do dicionário Houaiss para o termo laico: "Laico é aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa. Aquele que é hostil à influência da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral e sobre as instituições e os serviços públicos". Por mais que tentem distorcer ou achar outro significado que sirva aos interesses obscurantistas, organizar a Campanha da Fraternidade, dentre outros, não cabe em absolutamente nenhuma flexibilização que se faça desse conceito.

Os alunos frequentam as aulas de Ensino Religioso?

A Constituição diz que a oferta da disciplina é obrigatória e a frequência facultativa, mas a frequência é praticamente de 100% por vários motivos. Muitas escolas sequer avisam que os alunos podem não frequentar essas aulas, e embora a Lei de Diretrizes e Bases diga que a escola deva oferecer uma atividade alternativa para os que não desejarem assistir às aulas de ER, isso nunca acontece. Muitos pais também desejam o ER na esperança de resolver problemas de indisciplina ou agressividade dos filhos e filhas, o que também é desejado por professores que já lidam cotidianamente com esse problema na escola. Eu não quero ser pessimista, mas acho que tudo ainda pode piorar.

No Fórum de 2010 entrevistei 20 dos 100 professores que compareceram, e todos afirmaram que desejam que a frequência dos alunos seja obrigatória. Desejam que sua disciplina seja plena como as demais, e isso também vale para avaliação. ER confere uma nota, mas não reprova. Todos também disseram desejar que o ER reprove. Todo mundo sabe que a avaliação é participação, presença e uma prova ou trabalho final. Como um aluno de candomblé vai participar de uma aula que fala de catolicismo? Ele não se reconhece, recebe um livro didático dizendo que ele não respeita a vida e a natureza, apesar de o candomblé ser uma religião altamente ecológica. E também tendemos a avaliar mais positivamente quanto mais o avaliado se parecer conosco.

Em qualquer área da educação há que se ter muito cuidado com isso para não se cometer injustiças nem discriminações. Como fazer uma avaliação de ER se a perspectiva desse professor é a conversão? Se não revertermos o processo que avança, um dia o ER vai conferir uma nota que reprove.

Quais as propostas dos diferentes setores que discutem a questão?

Não há unanimidade. Há quem ache que é possível um ER plural, já alguns católicos reconhecem a impossibilidade de qualquer ensino religioso que não seja confessional. Há os que defendem um ER que fale da história das religiões. Ora, quem pode fazer isso? Quantas infinitas formas de significar o mundo subjetivamente existem? Penso que a filosofia sim deveria discutir as diferentes expressões de pensamento, tanto idealistas como materialistas, e incentivar a crítica intelectual dos estudantes que devem submeter tudo ao seu próprio pensamento duvidoso e interrogador do mundo. Há quem defenda que as religiões como candomblé e umbanda devem disputar hegemonia. Imagina se isso seria possível? Candomblé se aprende em terreiro e não na escola, assim como catolicismo se aprende na Igreja e protestantismo nas diferentes assembleias.

As religiões devam ser impedidas de circular nas escolas? Não, porque não somos um Estado ateu. Somos um Estado laico e somente a garantia total da laicidade pode garantir que as diferentes expressões religiosas circulem com seus símbolos e tensões nas escolas. Lidar com essas diferenças e tensões é mais um entre os tantos desafios dos professores e professoras. Há quem acredite que o ER possa ser um espaço para se ensinar Direitos Humanos. Penso que a função principal de qualquer disciplina é essa. Pensar que a disciplina de ER é o espaço dos Direitos Humanos é esvaziar as disciplinas de sua principal função. Então não há disfarce. Defendo uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que retire da Constituição a obrigatoriedade do ER das escolas públicas.

E isso resolveria essa intolerância religiosa nas escolas?

Não resolveria. O ER contribui muito para o obscurantismo, legitima o racismo e a discriminação religiosa. É claro que existem exceções, professores que realizam uma aula plural. Mas é com a regra que humilha diariamente principalmente as crianças de candomblé que estou preocupada. É com a confusão que se faz entre a fé privada e individual, com o espaço de educação pública e coletiva, que estou preocupada. O professor de química, ou qualquer outro, se for obscurantista vai discriminar. O de biologia, por exemplo, vai ensinar o criacionismo e mandar queimar Darwin. O de literatura se recusa a usar mitos e contos africanos, o que acaba gerando ainda mais problemas para a implementação da Lei 10639.

Então eu acho que é defender a PEC, retirar o ER das escolas públicas e trabalhar muito na sociedade como um todo e na formação de professores, em particular, para a construção de uma educação pública de qualidade, multicultural crítica e laica. Ou seja, uma educação para os Direitos Humanos.

Por mais que se tenha questionado como um pastor reacionário, racista e homofóbico como o Feliciano tenha chegado à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e permaneça nela, não se questionou o papel da educação nesse processo. Feliciano só chegou onde está e não caiu porque existe uma educação pública conservadora com a pauta homofóbica, racista e obscurantista do Vaticano nas salas de aulas, nos corredores, nos livros, nos pátios de nossas escolas. E, infelizmente, muitos Felicianos estão por vir. O maior desafio atual da educação pública é impedir isso.

Fonte: Jornal GGN

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